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São Paulo, sexta-feira, 30 de setembro de 2005

CINEMA ESTRÉIA:

HISTÓRIAS (JUVENIS) DA VIDA PRIVADA

Vida de Menina é baseado nas memórias de uma garota que viveu o período da pós-escravidão

PROTAGONISTA ESCREVIA SOBRE O QUE VIA E SENTIA, NA DIAMANTINA DO SÉC. 19

Luiz Carlos Merten

É uma conjunção de Helenas - Helena Solberg dirige a adaptação do diário de Helena Morley, que ela fez em parceria com Elena Soarez. Vida de Menina estréia hoje em São Paulo, mais de um ano depois de receber o Kikito de melhor filme no Festival de Gramado do ano passado. Helena Solberg admite que perdeu tempo conversando com as Majors, em busca de lançamento, mas seu filme tem um perfil especial, é atípico neste quadro da violência urbana que é a cara mais visível do cinema brasileiro atual. Ela viaja ao Brasil pós-escravocrata do século 19. Como conseqüência, os diálogos com as Majors não deram em nada, mas ela está feliz. Encontrou um ótimo parceiro em Marco Aurélio Marcondes Ferraz, da Europa Filmes. 'Vamos fazer um lançamento pequeno, mas decente', conta.

Vida de Menina já entrou em Belo Horizonte. Estréia dia 21 no Rio, após o festival de cinema, que monopoliza as atenções. No total, serão 15 cópias, apenas. O lançamento está sendo diferenciado, como o próprio filme. Quando Vida de Menina e Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo, dividiram os principais prêmio do Festival de Gramado de 2004, os críticos disseram que ambos tratam de diferentes perspectivas a mesma problemática social da escravatura e suas conseqüências, um do ângulo da senzala, o outro, da casa-grande. Vida de Menina costuma ser definido como ´delicado´ e ´gentil´, mas isso é só uma aparência. O filme possui camadas de leitura que vão revelando as relações familiares e sociais no Brasil após a libertação dos escravos. 'Para mim, é violentíssimo', diz a diretora.

Escrevendo seu diário em Diamantina, no fim do século 19, Helena Morley não fez obra de memorialista. Ela escrevia sobre o que via e sentia, naquela fase de transição da menina para a mulher adulta. 'Trabalhei muito com Ludmila Dayer, que faz o papel, para evitar que a personagem ficasse infantil. Ludmila entendeu. É uma força da natureza', define Helena Solberg. O livro trata de relações familiares, de emoções, de dinheiro. 'Helena Morley queria o mundo. Sente-se sufocar em Diamantina, quer abandonar esse universo provinciano, no qual a religião acena o tempo todo com o inferno. O diário passa esse sufoco.' O primeiro desafio da diretora foi encontrar uma estrutura narrativa dentro do diário. Foi aí que entrou a experiência da roteirista Elena Soarez. 'Ela foi uma interlocutora maravilhosa. Tem background em antropologia e é essa roteirista brilhante', explica Helena Solberg. 'Ninguém escreve um diário para que não seja lido. Terminamos compartilhando o mesmo fascínio de Helena Morley pela escrita', diz a diretora, que cita Lacan. 'Helena inventa uma personagem para si mesma. E, ao fazê-lo, documenta o mundo ao redor.' Seu diário foi banido nas casas de boa família de Diamantina. 'Ela fala mal de muita gente', explica Helena Solberg. Há pouco, a cineasta mostrou Vida de Menina em Paris, no quadro do evento BrasilFrança. Chegou uma moça dizendo que era de Diamantina. 'Falou que tinha essa tia, a dona Naná. É personagem do livro e do filme. É a prima bonita de Helena, que ela não poupa em suas críticas. ´É a minha tia!´, me disse a garota no fim da projeção. Toda Diamantina se reconheceu no livro, logo que foi publicado.'

Helena Solberg leu o livro em 1998. Lembra que o repórter publicou no Estado a primeira matéria sobre o filme em 1999. 'É tudo muito demorado. Levantar dinheiro, filmar.' É sua estréia na ficção, após o documentário Bananas Is My Business, sobre Carmen Miranda, e as dezenas de outros documentários que ela fez entre 1970 e 90, quando morou nos EUA, em Washington e Nova York. 'Trabalhei muito para a HBO e a National Geographic, fazendo filmes que me ajudaram a conhecer a América Latina e o Brasil.' Vida de Menina representa outra tentativa de entender e interpretar o Brasil, após Bananas Is My Business. A cineasta está encantada com a descoberta das possibilidades da ficção, mas afirma - 'A gente não se livra das obsessões, no fundo faz sempre o mesmo filme.'.














       
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