| São
Paulo, sexta-feira, 30 de
setembro de 2005 |
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CRÍTICA
UM FILME COM EMOÇÕES
NA DOSE EXATA
Sociedade
brasileira pós-escravidão
é retratada na obra inspirada
em diário de Helena Morley
LUIZ ZANIN ORICCHIO
Entre
briguinhas de família,
problemas de dinheiro, ciúmes
e fuxicos de colegas de escola,
é o cotidiano da sociedade
brasileira pós-escravocrata
que aparece nas linhas do diário
de Helena Morley, garota de família
inglesa que viveu em Diamantina
no final do século 19 (Ludmila
Dayer).
Vida de Menina consegue explorar
bem o depoimento da garota Helena
Morley, que vê a sociedade
de sua época por seus olhos
de pré-adolescente, quer
dizer, um ser humano que habita
aquela terra de ninguém
que fica entre a infância
e a idade madura. Desse modo,
ela se encontra em posição
privilegiada para observar o que
se passa à sua volta. Faz
parte do ramo pobre de uma família
rica, em especial por culpa do
pai, orgulhoso filho de ingleses
que decide empregar até
o último tostão
nas lavras, tentando enriquecer
com diamantes que não existem
mais ou insistem em se esconder
no leito do rio.
A mãe (Daniela Escobar)
é uma excelente esposa,
e se consola com a avó
de Helena, Dona Teodora(Maria
de Sá). Aliás, a
relação da menina
com a avó é um dos
temas fortes dessa história,
que a diretora do filme, em conjunto
com Elena Soárez, transformou
no roteiro que definem 'como muito
livre, porém fiel ao espírito
do livro'.
Mas o tema dominante seria mesmo
a paixão da menina pela
escrita, que está na origem
do diário. Helena Morley
é estimulada por um professor
a colocar seus devaneios em palavras.
E assim ela começa a registrar
seus pensamentos, seus 'castelos',
como diz. Para sorte dos futuros
leitores, a menina revela-se uma
autora com grande senso de percepção
e realismo. É observadora
arguta e nada do que se passa
na cidade, ou em sua própria
casa e família, lhe escapa.
O que é um bom observador?
É aquele que anota fatos
extraordinários? Não.
Isso qualquer um faz. O bom observador
é aquele que descobre coisas
fantásticas onde os outros
não vêem coisa alguma
digna de registro. Por isso, em
algum momento da história,
o dono do armazém que vende
os cadernos a Helena pergunta
o que tanto ela escreve. Helena
responde: 'Escrevo o que acontece
em Diamantina.' O homem se espanta:
'Mas aqui não acontece
nada.' E a menina responde: 'Justamente.'
Pois
é, esse lugar onde 'nada
acontece' revela, sob o marasmo,
uma sociedade em transformação.
As antigas relações
escravocratas foram abolidas,
mas a acomodação
dos negros livres nas casas de
família guarda traços
fortes do regime anterior. Exemplo:
Helena tem uma amiguinha negra.
Mas quando morrerem, irão
para lugares distintos, 'pois
há um céu dos brancos
e um céu dos pretos', como
ensina o pai de Helena. Há
também os conflitos causados
pela ambição por
uma fortuna que já não
pode ser feita em minas esgotadas.
O diamante circula como uma espécie
de símbolo esparso pela
história. Está na
cobiça do pai, na esperança
da mãe, na visão
serena da avó, que enriqueceu
no tempo em que a pedra preciosa
era abundante na região
a ponto de emprestar-lhe o nome.
Ao
mesmo tempo, é pela reflexão
sobre tudo isso - colocada sob
uma forma verbal muito franca
- que Helena Morley tornará
um pouco mais confortável
o seu rito de passagem para a
idade adulta. Ela se acostumou
a pensar através da escrita
e essa ginástica intelectual
lhe garante um amadurecimento
talvez mais rápido, pode
ser que menos sofrido, apesar
das circunstâncias adversas
de viver numa casa pobre e no
fim de um ciclo econômico.
Helena
Solberg optou por uma direção
clara, concisa e despojada para
retratar a vida de menina da sua
xará. Empregou uma delicadeza
cada vez mais rara no cinema brasileiro
atual. A música (muito
boa, de Wagner Tiso) pode soar
às vezes um tanto excessiva.
Mas as emoções vêm
na dose exata, em boa proporção,
sem melodrama, mesmo nas raras
ocasiões mais dramáticas.
A freqüente narrativa em
off é uma maneira de dar
conta do material literário
e não chega a atrapalhar.
De resto, o tom dominante do filme
é de um humor tão
refinado como simples - o mesmo,
aliás, que se encontra
no livro original. Às vezes,
sob certos ângulos, Ludmila
Dayer revela sua idade real -
20 anos contra 13 ou 14 da personagem.
São momentos de dissonância,
raros porém. E Pedro Farkas
opta por um registro fotográfico
solar, aberto, cheio de respiração.
Esse frescor visual é a
lembrança que melhor permanece
desse filme gentil, sensível
- e muito instrutivos sobre as
relações patriarcais
no Brasil.•
LIVRO
MERECEU ELOGIOS DE DRUMMOND, FREYRE,
BISHOP...
Quando
tinha 62 anos, Alice Dayrell Caldeira
Brant resolveu tirar do fundo
do baú uns cadernos que
continham seu diário dos
tempos de menina em Diamantina.
Quase 50 anos haviam passado e
ela queria fazer um livro 'que
mostrasse às meninas de
hoje a diferença entre
a vida atual e a existência
simples que levava naquela época',
conforme escreve na 1ª edição,
de 1942, sob o pseudônimo
de Helena Morley.
Minha
Vida de Menina foi um sucesso
instantâneo. Traduzido para
o inglês por Elizabeth Bishop,
que o leu sob recomendação
expressa de Rubem Braga, ganhou
também versão para
o francês (como Journal
d´Helena Morley) e o italiano
(Una Ragazza in Diamantina). É
considerado uma espécie
de História d a V ida P
rivada avant la lettre. Antes
que os historiadores contemporâneos
descobrissem nos fatos banais
do dia-a-dia um precioso veio
de pesquisa, a pequena Alice Dayrell
já os jogava nos cadernos
quadriculados, em suas noites
de ócio em Diamantina.
O
livro foi elogiado por escritores
como Carlos Drummond de Andrade
e, em sua edição
atual, ganhou prefácio
de Alexandre Eulálio. Mais
recentemente foi objeto de um
ensaio crítico de Roberto
Schwarz, Outra Capitu, no livro
Duas Meninas. Schwarz compara
a persona literária Helena
Morley, criada por Alice Dayrell,
à personagem de Machado
de Assis em Dom Casmurro, aquela
Capitu dos 'olhos de ressaca',
tormento de Bentinho. Gilberto
Freyre era outro que tinha o livro
em alta conta e o considerava
uma 'história natural brasileira'
daquele período.
Tamanho
prestígio levou alguns
críticos a duvidar que
páginas tão argutas
e de tão boa qualidade
literária tivessem sido
escritas por uma mocinha de província.
Achavam que era a Alice Dayrell
da maturidade quem redigia o seu
diário de adolescente com
as recordações que
tinha daquele tempo.
Isso nunca ficou esclarecido.
Mas
a observação mais
interessante veio de Guimarães
Rosa. Admirador da obra, Rosa
disse que se alguém algum
dia viesse a provar que aquilo
tudo era mesmo uma impostura,
o livro lhe pareceria mais notável
ainda porque seria a mais completa
reconstrução da
infância, evocada por um
adulto, que ele jamais lera. •
L.Z.O.