| São
Paulo, sexta-feira, 30 de
setembro de 2005 |
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A
descoberta do MUNDO
"Vida
de Menina", filme que estréia
hoje, sintetiza diário
de Helena Morley no séc.
19
EDUARDO
SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL
A
adaptação de "Minha
Vida de Menina - O Diário
de Helena Morley" não
foi tarefa fácil. Helena
Solberg, diretora do filme, e
Elena Soárez fizeram mais
de dez versões até
chegar ao roteiro final do filme,
que estréia hoje em São
Paulo. Escrito entre 1893 e 1895,
publicado em 1942, cultuado por
várias gerações,
o diário é uma colcha
de retalhos de três anos
na vida de Alice Dayrell, descendente
de ingleses que, na Diamantina
do fim do século 19, criou
a personagem Helena Morley para
narrar suas memórias de
adolescente.
"O
livro é formado por episódios
que terminam em si. Foi necessário
ler nas entrelinhas para dar a
idéia de passagem de uma
vida, de amadurecimento da personagem.
Menos uma questão de fidelidade
aos fatos do que ao espírito
do diário", diz Solberg,
interessada na universalidade
da história daquela adolescente,
sua relação com
a família e a Província.
"Eu
não estava atrás
de um enredo, mas sim de apresentar
essa menina, falastrona e desobediente
e que arranjou tempo para escrever,
uma atividade que pressupõe
disciplina e introspecção."
Histórico
Diferentemente de muitas mulheres
de sua geração,
Solberg não leu "Minha
Vida de Menina" na adolescência.
Interessou-se pelo diário
já adulta, quando soube
que o escritor Rubem Braga havia
sugerido o livro à poeta
americana Elizabeth Bishop, como
sua iniciação na
literatura brasileira. Bishop
acabou fazendo a tradução
do livro para o inglês.
"Achei
inacreditável, porque a
Alice não tinha intenção
literária ao escrever o
diário, mas criou um personagem
para contar suas memórias.
E o livro também é
um documento histórico,
do racismo pós-abolição
da escravatura e do início
da República", ressalta.
"Também
acho curioso que ela não
tenha se tornado escritora. Preferiu,
como disse, os serviços
de fazer com as mãos, para
ficar com o espírito livre
para sonhar."
Filmado
em julho de 2003, na Diamantina
que é cenário real
das memórias de Helena
Morley, "Vida de Menina"
foi lançado no Festival
de Gramado de 2004, de onde saiu
com seis Kikitos, entre eles os
de melhor roteiro e filme, dos
júris oficial e popular.
Faltou,
quem sabe, o de atriz principal,
cuja escolha foi curiosa. Desde
o início, Solberg tinha
em mente Ludmila Dayer, a quem
vira em 1995 em "Carlota
Joaquina - Princesa do Brazil".
Mas, ao se deparar com a atriz
num teste, quase desistiu. Maquiada,
então com 20 anos, não
mais parecia a escolha certa para
viver uma menina de 13 anos. Dayer
foi ao banheiro, tirou a maquiagem
e, de cara lavada, levou o papel.
"Queria
uma atriz que tivesse muitas caras,
que não se preocupasse
em aparecer ora linda, ora feia.
E a Ludmila é uma atriz
muito séria e inteligente,
conseguiu compreender o papel
e entender que não deveria
fazer uma caricatura de menininha",
diz Solberg. "E ela tem muito
da Helena Morley, algo da sua
rebeldia."
Para
Dayer, hoje com 22, o papel da
adolescente avançada para
sua época, que exigiu aulas
de voz e de postura para lhe subtrair
sete anos, foi um presente.
"Eu
lia o texto e pensava: "Como
ela tem coisa minha'", diz
a atriz, que, identificada com
o gênio forte de sua personagem,
mergulhou fundo. "Não
queria parecer uma menina mais
velha fazendo uma mais nova. E
isso exigiu muita concentração
para manter a continuidade. Eu
nem falava com a minha família
durante as filmagens. Foi um processo
de criação muito
intenso."
Filha
da autora aprova e elogia adaptação
DA
REPORTAGEM LOCAL
Caçula
dos sete filhos de Alice Dayrell
Caldeira Brant/Helena Morley,
a carioca Sarita Brant, 91, sabe
de cor os prêmios que "Vida
de Menina" já recebeu.
E não economiza elogios
ao filme:
"A música é
muito boa, os cenários
e a fotografia são lindos.
Elas fizeram um milagre, conseguiram
tirar um roteiro a partir daqueles
trechos. O filme ficou muito fiel
ao livro", diz Brant, também
elogiosa à atuação
de Ludmila Dayer. "Mamãe
era falante e expansiva. E isso
a Ludmila pegou muito bem."
Antes da publicação
de "Minha Vida de Menina
- O Diário de Helena Morley",
Brant já ouvia da própria
mãe algumas das histórias
narradas no livro. Contava sobre
os muitos pretendentes que teve,
como um francês que prometia,
após se casar com ela,
levá-la para morar num
castelo. Ou sobre a mudança
de Diamantina para o Rio de Janeiro,
já com o marido e os dois
primeiros filhos do casal, feita
com carro de boi, a cavalo e de
trem.
Brant era casada e já não
morava com Alice quando o livro
foi lançado. No entanto,
se recorda que o sucesso do diário
levou à casa da mãe
um sem-número de meninas
que pediam aos pais, como presente
de aniversário, para conhecer
pessoalmente Helena.
Depois de lançado o livro,
conta Brant, sua mãe, então
com 62 anos, não mais se
dedicou às letras. Em parte:
para os almoços com amigas,
dedicava-se a preparar e apresentar
pequenas palestras sobre atualidades.
"Mamãe era uma pessoa
muito inteligente e extrovertida.
Sempre que entrava numa sala,
tomava conta da situação.
E se conservou assim até
o fim da vida." (ES).